sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Minha Coimbra


A Coimbra que lembrava Minas, se tornou a Coimbra única da minha história. Na minha Coimbra nasceu uma linda nova família para mim. Pessoas que estarão comigo por toda a caminhada, seja em que direção ela vá, entram em definitiva para a coleção primorosa que ostento de pessoas maravilhosas, constitutivas da confusão que sou.
Na casa da rua Pinheiro Chagas, as conversas e residas com a Cora, nossa festa de aniversário, as visitas, festas, jantares, o radiador cão de guarda no inverno, o moço que morava na garagem em dias de chuva, o partir e o regressar, com o Leozinho, para partir de novo. Daquele quarto fiz um lar, naquela janela sonhei e sorri. Também foi lá que chorei muito, me despedacei, pedi ajuda. Ali também esperei ansiosa - na outra janela - pelos e-mails - naquele então quase diários - do meu Fran.
Na limpeza geral da república estudantil com o Leo. Breve tempo de final rodriguiano, com direito a pão da avó, filmes velhos na TV, jardim florido na porta e vizinhas vovós tão queridas. Tudo isso na rua da Mãozinha.
A casa das meninas, na rua Bernardo de Albuquerque, me senti acolhida e protegida. Nem sei quantas vezes ali estive, em mais ou menos curtas temporadas, antes de lá morar. A varanda, as alegrias, o aprendizado, as minhas Neiara e Thaís. Neste casa se falava a língua de Fortaleza, mais uma cidade que povoa o meu imaginário e meus desejos.
Foi já em Coimbra, dois anos e três cidades/países depois da partida que finalmente voltei para casa (...). Também foi Coimbra que me levou a Buenos Aires, finalmente e até breve.
No retorno de casa, deixei por um breve momento o circuito Cruz de Celas - Santo António dos Olivais e fui viver na Alta. Uma casa engraçada, um quarto enorme e o meu querido Caetano e o Bruno. Recife e Salvador, visitas, cabo de vassoura e longas deliciosas conversar sobre o amor e a política.
Foram quase dois anos em Coimbra. No segundo deles eu me dividi entre ela e a Espanha (Las Bárzanas e outras tantas cidades da Astúrias que ganhou todo o meu carinho, o eterno retorno a Madrid e Málaga) como o meu Fran. Já não estava lá por completo e o desejo de abandoná-la me dominava.
Agora, volto a Coimbra de passo, de tempos em tempos e me parece outra vez tão linda, tão minha. Almoço nas amarelas ou nas vermelhas e tomo café no Tropical ou no café em frente a FEUC que acho nunca soube o nome. Pego o 103 e desço as monumentais. Vejo a cidade do outro lado do Mondego, na chegada e na saída. Tão simples como imponente.
Nas suas ruas, ladeiras e calçadas portuguesas aprendi mais sobre o Brasil do que em toda a vida, aprendi mais sobre amizade do que esperava as essas alturas, aprendi tanto sobre o amor... que quando ele não azulzin, dói demais; que não sabemos abrir mão dele, mesmo quando não é para ser; que não escolhe hora, nem lugar, nem modelo; não respeita previsões, limites ou sonhos; mas, e sobretudo, que vale a pena sempre, sempre e sempre.
Coimbra, por fim, foi a grande escola do início(?) da minha vida adulta. Em uma das universidades mais antigas do mundo, nesse mesmo lugar onde se desenhou a invenção do Brasil e, portanto de mim mesma, e onde estou doutorando em "democracia no século XXI", se calhar, aprendi a ser uma pessoa um pouquinho melhor.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Fadoando


Coimbra me lembra Minas, mas não sei ainda, que cheiro tem.
Quando eu cheguei tinha o cheiro de alguma planta, que eu nunca soube o nome, que tinha no quintal de uma vizinha da minha mãe. Agora, tem cheiro de chuva, melhor, de mato úmido, e às vezes, mas só às vezes, tem uma leve brisa de mar. Tem gosto de pêra. Sólida e melancólica, monumental e decadente, velha e serena.
Neste subir e descer de emoções sutis, vivo em solo firme, porém cambaleio volta e meia, surpreendida pelo intenso novo no velho mundo.
Ultrapassando as fronteiras das minhas fantasias de familiaridade com o adverso, com a alteridade mesmo.
Aprendendo com a África na Colônia, como o outro de mim mesma.
É, esta é a minha Coimbra.


Texto: 21.01.2010

Quanta ladeira. Coimbra, quanto ladeira...

Sair o ritmo frenético de Londres e cair numa cidadela de estudantes em Portugal é uma experiência no mínimo intrigante.

A última semana lá foi emocionante. Mil coisas acontecendo ao mesmo tempo, trabalhando pacas, calorosas e surpreendentes manifestações de carinho e toda ansiedade do que estava por vir.

Na primeira semana cá, tive todas aquelas tarefas burocráticas, conhecer, familiarizar e estudar. Tudo ok.

Já na segunda... não sabia o que fazer. A noção de tempo se transformou drasticamente. Não tinha internet!

Passei a estar a 15 minutos caminhando de qualquer para qualquer lugar. Ladeiras intermináveis regadas à chuva quase que constante. Sem pressa, sem estresse, a vida é simples e alegre.

Pessoas maravilhosas logo de cara. Uma cena onde o alternativo é a regra, os vegetarianos não são minoria, jantares e conversas deliciosas.

A cidade é um encanto, velha mesmo, com ar de decadência elegante, cheia de histórias e tradições. A população é extremamente jovem, o que torna a atmosfera vibrante e animada.

Não há muito que fazer, na verdade. Mas quase todos os dias têm algo na programação da moçada.

A rotina é sistemática. Biblioteca, comer em uma das cantinas, tomar muito café e bater papo, biblioteca e casa (ou cerveja/vinho). Minhas aulas são nas sextas e sábados, esquema intenso. Mas, por enquanto, estou adorando. Ótimos professores, excelentes textos, calorosas discussões e muito aprendizado.

Passei ao campo da sociologia e da ciência política sem me dar muito conta disso, e estou me apaixonando.

Texto de 26 de novembro de 2009 (rs)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

ô pá!

Uma amiga minha perguntou por que?
Esta é uma pequena adaptaçao da resposta:

Porque eu sou cabeça dura! Porque nao queria voltar sem doutorado, muito menos sem saber se iria poder convalidar o mestrado. Por que me aceitaram e tentei a sorte vindo de Londres dois fins de semana ver qual era antes de decidir, e entao, me apaixonei.
Porque meu pai é mais cabeça dura do que eu e me fez uma mega pressao do bem para eu continuar e voltar (mais) feliz. Acho todos os motivos acima plausíveis, mas na verdade nao sei exatamente o porquê(?!).
Tá difícil: nao tenho trabalho (ainda), to esperando resposta de projetos de pesquisa remunerados, tá um frio do caralho, nao existe calefaçao em lugar nenhum (nem nas bibliotecas), to morrendo de saudades de casa e me sinto muito sozinha.
Tá legal: as pessoas sao ótimas, os profs sao incríveis, o curso tá o máximo, Coimbra é maravilhosa, tomo muito vinho e como muito bacalhau (na cantina social por 2.15!!!).
Tenho uma passagem para o Rio para o dia 21 de fevereiro, logo após o fim do primeiro semestre de aulas. A volta, tá marcada para o dia 17 de março. Mas só volto pra cá se algo da pior parte da parte difícil tiver mudado até lá...
De resto, gosto muito do tabajara mesmo. Nao estamos juntos oficialmente e de fato, faz muito tempo, mas nos falamos quase todos os dias e sempre arrumo uma desculpa para ir a Madrid e namoramos um pouquinho. Voltei a pensar! Sinto até euforia com as novidades, os outros enfoques etc. Voltei a sonhar...
Amo amo amo amo!

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

If there was a better way to go then it would find me

Haja estômago para agüentar tanta indefinição, instabilidade e reviravoltas.
Pensei que a próxima postagem ia contar para vocês que eu estaria de volta a casa em novembro próximo. E eu pensei muito antes de tomar esta decisão. Por que mais uma vez isso significava abrir mao do doutorado e deixar meu namorado super complicado para um futuro incerto.
Tirei duas semanas de ferias no curso de inglês para trabalhar integral e economizar algum e aceitei, nao com menos relutancia, que não ia dar para viajar de despedida.
Comecei a buscar as possibilidades de trabalho no Brasil, a pensar onde iria morar, e me vi muito aberta a toda e (quase) qualquer possibilidade. A tristeza e a confusão que andavam rondando meu coração nas semanas anteriores se dissipou completamente. E, apesar da rotina dura e sem graça, estava animada e muito feliz com o pronto retorno ao lar, finalmente.
Ate comprei a passagem, mas o cartão de credito do Brasil tava estourado e recebi um e-mail no dia seguinte dizendo que a compra não foi realizada…
Alguns poucos dias depois, assim como se nada, quando abri meu e-mail no sábado pela manha, aquela certa universidade lusitana, que tem aquele certo programa de doutorado, que já tinha me dito não, de repente diz que eu fui aceita e que as aulas começam no dia 1º de outubro!
¡Vaya putada!
Queria ser o tipo de pessoa que diz: não, não! Já tomei a minha decisão. Já estou cansada do lado ruim dessa experiência. A saudade já não encontra onde se esconder. To voltando para casa e isso vai ser maravilhoso e não vou pensar nunca jamais em todos os “ses” da outra possibilidade.
Mas eu não sou, definitivamente, aquele tipo de pessoa. Uma indecisão doida, quilos de chocolates, uma super amigdalite e finalmente a decisão de tentar, de recomeçar mais uma vez, de ver no que vai dar. Sempre esperando que dessa vez seja... bom isso seria tema para outro longo texto.
Por agora meu coração esta em ebulição. Evidentemente não tenho nenhuma certeza e nem mesmo bons indícios de esta seja a decisão mais acertada. Mas é a minha.
Claro que antes e necessário que me dêem o visto, e antes disso, tudo é especulação. Eu já sabia, mas não havia realizado ainda o quanto as especulações têm efeitos práticos nas nossas vidas.
Os livros foram devidamente desempacotados, e a lista infinita de coisas favoritas que seriam promovidas a partir de novembro foi colocada na gaveta da esquerda, para esperar indeterminadamente por um momento mais propício.
De qualquer forma, e talvez a coisa mais importante de todas, o sentimento de agraciamento que tomou conta de mim nos últimos anos segue, cada vez mais fortalecido, e eu só tenho a agradecer.
Todo o amor e apoio que recebo transbordam, emocionam e enchem de força essa pequena pinscher metida a pit bull.

I certainly haven't been shopping for any new shoes
And
I certainly haven't been spreading myself around
I still only travel by foot and by foot, it's a slow climb,
But
I'm good at being uncomfortable, so I can't stop changing all the time
Fiona Apple

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Hot air...

Calmaria outra vez.
Uma menina nova chegou para dividir o quarto comigo. Ela é brasileira, de Goiânia, nem tão menina assim (tem 37, duas filhas, mas parece ter 25), arquiteta e super tranqüila.
Mudei de nível no curso de inglês e estou um pouco mais estimulada. Vendo filminhos – com legendas em inglês claro, escutando BBC news, audiobooks e consultando letras das musicas de toda a vida. Boa menina, certo? Mas Confesso que o progresso é bastante lento, apesar de ser real.
De resto rotina monótona e pouco ócio. Os únicos programas desde que escrevi a última vez foram ir ao Wimbledon de tênis, ao musical Mamma Mia, ambos em um esquema excursão da escola de inglês, e ver o jogo do Brasil contra os EUA em bar brasileiro chamado Guanabara.
O primeiro foi um saco. Mil horas de fila, um sol dos infernos sem sombra nem água fresca, um jogo muito mais ou menos em que ganhou um brasileiro cheio de marra e um jogo super legal, mas eu tava cansada demais para desfrutar.
Valeu pela companhia sempre super divertida das colombianas, pela experiência que me ensinou que não sou uma pessoa de eventos esportivos e pela inveja que causei nos meus irmãos (rs).
O musical foi muito legal. E olha que eu não gosto de musicais, mas o ABBA sempre vale à pena, fato.
O jogo do Brasil, que como vocês sabem não me importa muito, foi desses momentos cafonas em que as “pessoas humanas” se sentem mais pertencentes ao seu lugar no mundo. Ser estrangeiro me tornou muito mais brasileira. A verdade é que a bandeira, o hino e todos os demais símbolos nacionais ou patrióticos tão pouco estimados nos tempos atuais ganham um valor sobrenatural e aumentam e aclaram nosso sentido de pertencimento. Torci muito, gritei e fiquei super feliz com vitória, sofrida e de virada.
Depois teve forró. Isso mesmo, forró. Ao vivo e tudo. Foi ótimo. Lavei a alma.
Nada de pubs, festas, shows, visitas... Sinto-me bastante entediada às vezes, mas estou em um maravilhoso estado de paz.
Tenho que tomar várias decisões em médio prazo e muitas delas não dependem somente de mim, mas por algum motivo desconhecido não estou ansiosa.
Deixa a vida me levar...
“God save the queen

we mean it man

we love our queen

god saves (…)”

Sex Pistols





segunda-feira, 15 de junho de 2009

A María (a colombiana que dividia quarto comigo) foi morar em uma casa de família para trabalhar de babá. Estivemos buscando outra pessoa para ficar no lugar dela, mas a época é péssima e não encontramos ninguém. Por isso tenho que sair eu também ou pagar sozinha pelo quarto, o que não é possível no momento. Depois de tortuosas discussões com o landlord acabamos conseguindo convencê-lo de nos devolver a fiança, mas por isso tenho que me mudar as pressas e perder uma semana já paga. London life!!!
No meio do caminho desta confusão, eu fui para Espanha. Essa viagem foi um desastre completo, do inicio ao fim, em todos os sentidos. Uma decisão foi tomada em definitiva: só volto a viver naquela cidade se me pagam - e bem - para isso. Se não, nem pensar, never more dijeitoninhummmmmmmmmmm
Voltei para Londres e senti alívio - quem diria! Mas logo depois começou o problema com a casa e a paz tão desejada ficou um pouquinho para depois. Sinto-me horrível nesses momentos, mas isso me faz mais forte. Preciso acreditar nisso!
Muito estresse, os hormônios enlouquecidos, uma saudade fudida (é o meu blog e me permito) e a cabeça rodando mais que um peão.
Acho que finalmente estou entrando na caverna em que me propus, na marra, por insistência e/ou persistência. Nada de culpa, remordimentos, crises de ansiedade, tempestades de dúvidas e expectativas maníacas e coisas do gênero. Basta!
Eu sou estudante de inglês e garçonete em uma temporada em Londres. O deus tempo já se encarregará do que virá.
Desculpem-me o texto atravessado. Mas é que a cada fase difícil penso demasiado em vocês e na vida que deixei para trás. Tenho medo de não ter feito a coisa certa, de como será quando eu voltar, de não responder as expectativas e de perdê-los. Sinto culpa por não estar presente, por não ligar, por não escrever, por não saber e não cuidar. Sinto falta, muita falta. Sinto-me só.
E já não quero mais sentir nada disso. Desejo imensamente me sentir feliz e plena sozinha e viver só o momento presente. Só.
Mas amo muito e tenho muito mais amor ainda que dar, qualquer dia desses, em um futuro próximo e incerto.